terça-feira

...

As nuvens passam o dia no ar
não caiem como as pessoas...em encontros riscados em silêncio

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Cerrada em si a rua escuta
passos apressados
um corpo leva um abraço expirado pelo frio.

sábado

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"Relatam os Taoístas que, no grande começo do Não-Começo, o Espírito e a Matéria se encontraram em combate mortal. Por fim, o Imperador Amarelo, o sol do Céu, triunfou sobre Shuhyung,* o demónio da escuridão e da terra. O Titã, na sua agonia de morte, bateu com a cabeça contra a abóbada solar e despedaçou em fragmentos a cúpula azul de jade. As estrelas perderam os seus ninhos, a lua errou sem destino por entre os abismos agrestes da noite. Desesperado, o Imperador Amarelo procurou por onde pôde pelo conservador dos céus. Não teve de procurar em vão. Do mar oriental ergueu-se uma rainha, a divina Niuka,* de cornos coroada e com cauda de dragão, resplandecente na sua armadura de fogo. Foi ela quem soldou o arco-íris de cinco cores no seu caldeirão mágico e reconstruiu o céu chinês. Mas também se conta que Niuka se esqueceu de preencher duas pequenas fendas no firmamento azul. Assim principiou o dualismo do amor - duas almas rolando pelo espaço e nunca em sossego até se unirem para completar o universo. Cada um tem de construir o seu céu de esperança e de paz.
O céu da humanidade moderna está de facto despedaçado na luta ciclópica pela riqueza e pelo poder. O mundo anda às cegas na sombra do egoísmo e da vulgaridade. O conhecimento compra-se com má consciência, a benevolência pratica-se por amor à utilidade. O Oriente e o Ocidente, como dois dragões lançados num mar fermentoso, esforçam-se em vão por voltar a merecer a jóia da vida. Precisamos novamente de uma Niuka que conserte a grandiosa devastação; aguardamos o grande Avatar. Entretanto, tomemos um gole de chá. O ardor da tarde ilumina os bambus, as fontes murmuram com gosto, o sussurro dos pinheiros escuta-se na nossa chaleira. Sonhemos com a evanescência, e demoremo-nos na bela tolice das coisas."

*Shuhyung: Chu Yung
*Niuka: Nu Wa (Nu K´ua Shih).

Kakuzo Okakura, O Livro do Chá, BI.012,2007, pp 18-19

domingo

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quem se atreve a aquecer o frio,
onde o tempo ficou preso numa agulha.

sexta-feira

" "

O vento cai entre pedras que flutuam.
O vazio pleno adormece.
O silêncio fica suspenso.
A água lisa afunda-se.
O frio contempla o seu reflexo.
O martelo cintila.
O ar parte as montanhas.
A caricia rasga-se.
O sopro corre em pedaços.
A luz salta para o escuro.
A névoa torna-se espada.
O duro tronco levita.
O sorriso endurece.
O ar em flecha se torna.

terça-feira

" "

eleva-se uma onda, o olhar sorri
a rocha desfaz-se quando o mar lhe dá a mão.

segunda-feira

" "

"(...) o homem e a mulher. Para além das palavras, um olhar, um sorriso é quanto basta para que cada um se abra ao mistério do outro, ao mistério novo. "

François Cheng, A Eternidade não de mais, Ed. Bizâncio, pg 13

quinta-feira

" "

O outro responde:

- Entre as sombras, o peso respira-se em leveza; e na leveza, respiram-se as sombras.

Depois nada mais disseram. Já tinham um nome. Uma identidade. Mas continuavam a desconhecer a meta.
(Como se necessário e a meta se torna-se o caminho.)

A leveza de uma concha guarda o escuro da sombra onde se toca um fino brilho guardado no fundo do ar.

Quando o dia acordou já a noite tinha ido embora, sem nada dizer tudo se ouviu.
O sol suspenso no seu sono adormeceu cedo, levemente no balanço das nuvens e por lá se deixou ficar; de olhos fechados a esconder-se do frio.

A névoa vem à rua martelar o ar como se ele fosse aço. Faz-se pesar entre nós; construindo cascatas de frio como se o mundo tivesse girado o seu pólo.
Deu-nos um passo apresado com vontade de ir para casa mergulhados numa respiração quente.

O nevoeiro entrou no metro.
Eu entrei nas escadas rolantes.
Ele foi-se embora. Eu não olhei para trás.

Entre o dia e a noite, mesmo sem nada terem dito. Continuam o caminho de desconhecer a meta.

quarta-feira

...

Numa sala ausente o ar suspira
tem uma memória de que não se recorda:
mãos sem fim correndo outras salas ausentes de tudo presentes de nada
agarrando o chão com os pés através do olhar que toca sem se mexer
largando tudo sem abrir a mão de deixar para trás ao acaso o acontecimento
de estar:
O mar guardado numa gota à beira de uma rocha
a observar o ar num dia onde a sombra não pesa.

terça-feira

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O mundo estraga-nos com os seus mimos.

sexta-feira

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Gota a gota
cai
a pedra

Passo a passo
ergue-se o chão.

terça-feira

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Há um sol a largar os seus belos cabelos molhados ao vento.
No seu movimento
a chuva cai feliz
por se ir passear aos cantos e recantos da terra e regressar a si
numa viagem sempre sem fim ou princípio,
apenas a acção de estar.

domingo

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A tranquilidade das rochas
é observada pelo rio que corre.
A quietude do céu
é observada pelo flutuar das nuvens.

O sol vem lá de cima para nos tocar.
Ás árvores cá em baixo para nos apoiar.

Temos o silêncio a ouvir:

A chuva faz ligação entre
rio e céu
rochas e nuvens

O Homem faz ligação
o quê?

Temos sorrisos à espera de serem feitos.

sábado

*

"A montanha vazia repercute os mínimos sons, faz ressoar a distância no pavilhão auricular com uma clareza perturbadora. O vento espalha o sussurro das folhas que caem; as corujas piam a sua solidão sem remédio. Quando se anuncia uma tempestade, a trovoada faz vibrar as portadas, e com elas o corpo do homem que está à escuta. "

François Cheng, A Eternidade não é de mais Ed. Bizâncio pg 202

sábado

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Rochas de árvores no meio das nuvens a contemplar os Homens.
Nós por aqui: a abanar sem vento.

quinta-feira

#14

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Manto de pedras voa
ergue o horizonte a ser observado.

....

Pedras murmuram leves segredos
à volta de um lago
enlaçado de sol.

quarta-feira

domingo

....

Permanece em demorado silêncio a folha
Enquanto espera pela próxima gota:
Nunca sabe o tempo da Chuva.

sexta-feira

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A mão pega de um lado, a outra do outro. A meio da força rasga-se um vazio.

Uma folha dois pedaços: no meio permanece em branco o rasgo que nunca irá ser tocado.

domingo

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Uma respiração eterna mantém dentro dela uma montanha plena de vazio.

Vazio aberto a uma respiração oriunda de todos os lugares para todos os povos, secretamente guardada à superfície. Através do sopro vindo da sua respiração, emerge em água cristalina uma terra firme: firme como o ar solto.

sábado

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Cerrada em si a rua escuta
o frio tem um corpo de um abraço arrepiado.

terça-feira

...

Caminhava eu na terra quando um fio de água caminhava no ar.
Na sua caminhada, esse fio de água fintou-me. Cheguei-me a ele e desenhei com o meu Guarda o que ele escrevia: Chuva.

quinta-feira

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Folhas de pedra marcam tempo quando caiem no meio do ar até ao chão. Assim que O caminho presencia, agarra em si e vai.
A folha de pedra cai sem se mexer, julgando ficar num sítio onde nunca irá cair:
em cima de si mesma.


quarta-feira

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Saber que não se sabe
é ter conhecimento. Fazer o conhecimento é ter sabedoria.
Pensar que se sabe sem dizer a ninguém o que se sabe
é deixar de ter conhecimento.

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quantas vezes devias ter mordido e não apenas ladrado

sábado

...

corpo sentado
na alma de uma memória,
sol feliz também queima.

segunda-feira

....

Borboleta
voa
levemente
ao encontro de uma pérola

...

Corre o rio
no seu norte
As pedras ficam

domingo

.

O Céu olha distraidamente o ar

sábado

....

Leve movimento
fixou-se
insuflado pelo vento

...

Um vento azul
levou a terra fria
num manto branco

sexta-feira

.......

Quase todas as noites
a caminho de casa
levo um susto comigo:
alguém que espreita
dentro da noite escura,
sempre...

quinta-feira

o sol toca
a rua cheira
reflexos azuis

quarta-feira

Logo a passar

O corpo rasga o ar
para fazer o caminho
e seguir
A seguir o caminho
faz o ar
para o corpo rasgar
e seguir

domingo

...

Entre o estar à espera
e estar
nenhuma espera chega a estar

sexta-feira

.....

Desenhos desenhados à margem da luz
Delineados em instantes
Quase não se vêm

...

O que não se vê no visível
Encontra-se no escuro
Os olhos são abertos
A escuridão desaparece
As formas revelam-se
e volta a ser dia

.....

A pele a encostar-se ao corpo.
O corpo a encostar-se ao lado de dentro.
O lado de dentro a tornar-se o lado de fora.

segunda-feira

#6


#5


#4


Gesto

Mãos que sentem.
Mãos que acolhem o peso da cabeça e a seguram como se ela fosse cair. Mãos que se descansam. As mãos que escrevem. As mãos que lêem e as que dão a ler. As que pensam e as que falam. As mãos que imitam e omitem gestos. As que acenam. As mãos que fazem, que fazem fazer. As mãos que empurram, as que unem. As mãos que se estendem, as que deitam fora, as que seguram. As que agarram. As mãos que tiram, as que dão. As mãos que matam. As que respiram. As mãos que apontam. As que se encolhem. As mãos que obrigam. As que obedecem. As mãos da terra. As mãos que partem, as que ficam. As mãos que atacam. As que protegem. As mãos que se afastam. Que se cruzam. As mãos que se abraçam, que se tocam.
Mãos que não se cansam de sentir.
A mão que toca o que vê faz a mão tocar e sentir o que o olhar observa: faz o corpo chegar perto ao que permanecia ainda afastado do mundo privado da mão.

Encontro de duas mãos.

Mão em mão ocupando cada uma o seu espaço que fica do seu lado. O espaço no meio é respirado por um corpo. Este vive, não para separar as duas mãos, vive antes para as poder unir através de braços que se abraçam. Braços, onde cada uma das mãos aparentemente fixas aparentemente em movimento, fazem outros corpos.
Cada uma, segura de si segura-se a si mesma para poder dar a sua mão à outra, e caminhar em cima dos pés, abrindo caminho ao corpo, e ele: atravessar-se a si mesmo.

Cheio ou vazio?

O silêncio é cheio de sons.

sexta-feira

A Chegar

A correr com os pés a caminho das mãos
a levar o vento ao lado do sol
a agredir campos e rios de movimento
a perseguir passos feitos de respiração
a largar palavras construídas de ausência
a desbravar matos
a predispor a coragem a existir
a provocar a re-forma de uma pele
para erguer a muralha de um instante:
chegar onde já estava,
junto de si...

Sobre os Seis Sentidos

Num outro dia que já não este, perguntaram-me: “De onde vem a inspiração dos artistas, onde é que os artistas vão buscar inspiração?
Bem, respondi que existem “coisas” que me fazem olhar e sobre elas trabalho.
Apesar de ter respondido não coloquei de parte a pergunta que me provocou o riso e a reflexão. Nunca tinha pensado sobre a inspiração, para mim apenas é necessário saber trabalhar.

Reformulei a resposta: Quem respira não precisa de inspiração…

quarta-feira


Vazio #9
2009
Serigrafia
150 cm x 850 cm X 3
Empty #9
2009
Screenprint
150 cm x 850 cm X 3

terça-feira


Vazio #3
2009
21 cm x 15 cm X 27
Técnica mista (gravura e caneta sobre papel )
Empty #3
2009
21x15X27
Mixed Media (engraving and pencil on paper)

sexta-feira

vazio

Qual é que é o cheio de um desejo que pode deixar o vazio ser cheio por um desejo vazio?

quinta-feira

quero ouvir

É ensurdecedor não se ouvir o silêncio.

Primeiro vazio

Tenho a agradecer ao medo o respeito e o crescimento que me deu:

http://sites.google.com/site/terroirgraffiti/

sexta-feira

Quem somos nós para tanto termos sem disso dar-mos a necessária atenção?
O que somos nós....

perguntei-me hoje sobre este assunto

Como é que eu quero aquilo que quero?

quinta-feira

Toquei no ar com ar de assustada
Mais assustada fiquei quando vi que não vi
Sem saber onde me encostar
Se na noite se no dia
Se ao luar penar
E deixar a noite me atacar
Para nela repousar

quarta-feira

Os pés encostam-se
A terra desliza
Os pés caiem
A terra foge

O vento nas nuvens

Nunca falando vai silenciando, nunca mexendo vai tocando, vai crescendo, vai soprando devagarinho até sentir-mos o vento através de nós.

segunda-feira

Tocar

O gesto de levar a mão que segura um dedo e toca na pele onde o coração está, um dedo que sente o coração a bater e a fazer-se sentir. Se retirares a mão que segura o dedo, consegues continuar com a mesma sensibilidade e natureza tocar no teu coração? Eu gostava de tocar no coração sem ser através de um dedo...

sábado

terça-feira

Ar

O que transportam as tuas mãos...

segunda-feira

tudo

Para onde vai tudo aquilo que não existe?

sábado

Ligação

É através do corpo que o ser humano tem a possibilidade de tornar visível, sensível tudo aquilo que os seus olhos vêm e que têm uma consequência sensível na sua experiência, na sua percepção.
O seu corpo é a sua ligação ao mundo e a sua possibilidade de transmutar aquilo que lhe vai na alma. O corpo deve apresentar-se como um entrançado de visão e movimento.

O que é que nós não vimos, mas existe?
O que existe e nós não vimos?
Qual é o uso que nós fazemos da visão?


Para onde vai tudo aquilo que deixámos de ver, de olhar?



O olho passeia pelas coisas da natureza.

O caminho do olho que olha as coisas necessita de um treino diário, um domínio do olhar que olha, que quer ver, que necessita de ver, que vê o mundo e as suas cristalizações da mesma forma que o homem habita a sua casa.
O olhar dos artistas lançado sobre as coisas, o seu modo do fazer, tudo é resultado da sua visão e do modo como lançam os olhos ao mundo.

quarta-feira

Interior

No interior das coisas há um silêncio, que mantém uma ligação com a essência.
São as próprias coisas, pertencentes ao mundo físico, que nos chamam e apelam para dentro delas mesmas, para serem olhadas, observadas e sentidas; enquanto Homens com sentidos, é o nosso dever faze-lo.

sábado

O que nos aconteceria...

O que nos aconteceria se:

- Cada vez que acordamos teríamos de gritar, berrar, provocar dor até encher os pulmões de ar e lutar pela vida para estar vivo, como quando nascemos? Que dor nos iria provocar?
Quantas vezes iríamos morrer? ...

Quantas vezes durante o dia vivemos a morte, porque não nos sentimos a respirar?

(Como é que sentimos, se deixa-mos de nos sentir?)


...voltar à origem/começar a sentir a respiração....
não se vê, não se toca, não se cheira: Apenas se sente!
Falta-nos sentir, sentirmo-nos!

quarta-feira

Sala de Chá

Cháismo é um culto baseado no sentir da pureza, o sentir da harmonia. O culto de adoração pelo que é belo entre realidades mundanas da vida do quotidiano.

É o nobre segredo de nos rirmos de nós mesmos - o sentido de humor em relação a nós próprios é uma força infinita.